quarta-feira, 2 de setembro de 2020

Onde mora a Esfinge?

 


Conheci-as no mês em que as folhas das árvores se esqueceram de viver.
Uma tinha olhos tristes e partiu. Dizem que a viram, perdida, no azul profundo e constelado do cosmos...
A outra tinha olhos de amêndoa e fugiu. Dizem que a viram nas viagens do pó branco, a caminho das terras rubras do ocaso...
Dizem também que a primeira volta sempre quando as folhas se esquecem de viver. Com olhos de amêndoa ou cabelos soltos ao vento. Com uma mão cheia de nada e a outra vazia de sonhos. Todos os anos. Quando as folhas das árvores amarelecem, caem por terra e esquecem-se de viver...


Conheci a Esfinge há muitos anos. Não sei se voltou da longa viagem frustrante que fez com a sua heroína. 
Onde mora hoje?


«Não se volta a encontrar o objeto que foi nosso!»
«Ou nunca foi nosso o objeto que só existiu na imaginação dos construtores de sonhos.»
«O teu chamamento não passou de um equívoco. E as palavras que dissemos afinal ficaram por dizer.»
«Poupei as palavras.»
«Ah!, poupaste as palavras.»
«Quis dizer-te...»
«Sim?»
«Esquece.»
«Os teus olhos!, ia jurar que falaram...»
«Os olhos não falam.»
«Não falam. Claro.»
«Estou preocupada. E se eles falaram? Podem ter dito coisas horríveis.»
«Horrivelmente belas. Tu estavas afónica. Lembras-te?»
«Fugi.»
«Por caminhos sem regresso. Ficaste algemada na noite. Na noite branca da tua heroína. E sabes muito bem que sou do azul. Só faço viagens no azul. Nunca podia ter ido ao teu encontro.»
«Estamos na mesma onda. Repara: também sou do azul.»
«Mentira. A minha onda beijou as areias vermelhas de uma ilha.»
«Mas... disseste que os meus olhos falaram!»
«Posso saber de quê?»
«Não sei. Estava afónica...»
«Vês?»
«Vejo o quê?»
«A nossa relação nunca podia resultar. Até os olhos fingiram. Uns olhos de amêndoa. Quis ser o teu ladrão e não deixaste. Que tenho de teu? Uma mão cheia de desencantamento. Antes fossem utopias e um buraco negro tragasse a viagem inimaginável pelo contramundo do absurdo.»
«Falas por enigmas. Não te compreendo. Mas aqueles olhos eram meus, acredita.»
«A quem os roubaste? Não podiam ser teus. Eram demasiado belos para serem teus...»
«Acaso sou feia?»
«Tens um certo ar egípcio...»
«É mau ter um ar egípcio?»
«Voltemos aos olhos. Quando falaram verdade, então fugiste.»
«Sim. Fugi.»
«De quem eram os olhos?»
«Se te disser, juras que não vais à minha procura?»
«Juro. Ou melhor: prometo. Depende da resposta. E nada resolves em fugir. Já sei que o teu castelo está escondido entre as nuvens. Por mais alto que esteja, vou lá chegar. Nem que dure uma eternidade. Bem sabes que também sou eterno. O meu tempo não tem tempo e o teu está condicionado pelo pó branco.»
«Então já sabes. Confesso que profanei o teu laboratório secreto, aquele onde misturavas os ácidos com as bases. Os ácidos beijavam docemente as bases e os cadinhos iam ao fogo purificar o ódio. Procurei o filtro do amor sem qualquer resultado. Apenas encontrei o salgado da tua paixão que queima. É esse o meu drama. O segredo da pedra filosofal não falava de pó branco. Sim. Profanei o teu laboratório e por isso fugi.»
«A fenolftaleína traiu-te.»
«Roubei a essência.»
«E o pó branco que tomaste?, essa espécie de cicuta. É muito tarde para perguntar se gostaste. Se era o que querias.»
«Estou confusa. Não sei quem entrou cá dentro. Quem me domina. Num momento vivo a eternidade e na eternidade vivo o pesadelo.»
«Que vale mais? O outro lado da porta
«Não venhas ao meu encontro.»
«Porquê? Já não és do azul? Deixa que descubra nos teus olhos!»
«Não são os meus olhos. Roubei-os.»
«Estamos num círculo vicioso. Já sei o que vais dizer a seguir. Que estás afónica e que os teus sinais são pistas falsas. Mas deixa que te fale pela última vez. Pelo telefone. Sim? Quando falávamos ao telefone tinhas uma voz tão doce, tão indefesa!»

Nunca mais aconteceu...
«A Esfinge?»
«Quem fala?»
«Um amigo.»
«Espere um momento.»
«Posso esperar uma eternidade.»
«Também é eterno?»
«Sou.»
«A Esfinge não pode falar. Está afónica.»
«É pena, Esfinge...»
«Como aconteceu? Não sei. Estou afónica. Olha, procurei-te há dias.»
«Men...ti...ra! Como posso acreditar?»
«Mais tarde telefono.»
«Não. Não pode ser mais tarde. É um equívoco telefonares mais tarde. Bem sabes que o tempo não existe. Os avanços e recuos que fizeste, traíram-te. Roubaste a fórmula mas tenho um duplicado que aperfeiçoei. Esse sonho já não existe. O azul já não é azul e o céu não está onde o víamos, do nosso banco do jardim. Lembras-te?»
«Mas eu sou a Esfinge. Há um equívoco. Certamente deliras. Não sou a outra.»
Silêncio cúmplice de uns olhos de amêndoa...
«Estás triste? Descobri-te. Não tenhas receio, estrela. És o meu cordão umbilical e salvaste-me naquela noite em que vimos "O nome da Rosa"...»

A Esfinge tinha uma heroína

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